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Farinazzo diz que Trump caminha para “derrota colossal” em confronto com o Irã

Em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, Robinson Farinazzo afirma que os Estados Unidos sofreram “humilhação militar”

Farinazzo diz que Trump caminha para “derrota colossal” em confronto com o Irã (Foto: Divulgação | REUTERS)

247 – O comandante Robinson Farinazzo afirmou, em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, exibido neste sábado (18), que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, enfrenta uma situação de extremo desgaste no confronto com o Irã e pode sair “humilhado” da crise no Golfo Pérsico. Segundo ele, a escalada militar, o bloqueio no Estreito de Ormuz e a incapacidade americana de impor uma solução rápida revelam não força, mas fragilidade estratégica de Washington.

Ao conversar com o apresentador Mário Vitor Santos, Farinazzo sustentou que o governo dos Estados Unidos superestimou sua capacidade de arrancar concessões de Teerã e ignorou a profundidade histórica, política e civilizacional do Irã. Para ele, a Casa Branca entrou em um conflito sem saída fácil, num momento em que o calendário político interno pressiona Trump e amplia o risco de desgaste eleitoral, econômico e geopolítico.

Logo no início da entrevista, Farinazzo rejeitou a hipótese de que o Irã aceitasse abrir mão de ativos estratégicos sob pressão de Washington. “É um absurdo falar: ‘O Irã vai entregar o o Irã enriquecido dele paraos Estados Unidos’. Eles nunca vão fazer isso”, declarou. Em seguida, lembrou que as negociações conduzidas pelo governo Joe Biden ao longo de quatro anos não produziram os resultados esperados pelos norte-americanos. “Foram as negociações mais difíceis da história dos Estados Unidos e não deu em nada. Não deu em nada. foi ocupou todo o mandato do Biden.”

Na avaliação do comandante, Trump partiu de uma expectativa irrealista ao imaginar que poderia obter em poucos dias aquilo que Washington não conseguiu em anos. “Então, o que faz um nécio como Donald Trump saber que em uma semana ele ia extrair concessões do Irã? Não vai. Ele vai ter que ceder muita coisa.” E foi além: “A tendência dele, se ele não tiver uma carta militar na manga, que nós não sabemos ainda, é ele sair humilhado dessa história, porque o Irã não vai ceder.”

Irã não cederá, diz comandante

Farinazzo argumentou que a resistência iraniana não pode ser compreendida apenas em termos conjunturais ou militares. Para ele, trata-se de um país moldado por décadas de sanções, agressões e tentativas de desestabilização. “O Irã tava sob sanções dos Estados Unidos há quase 50 anos”, disse. Ele recordou ainda episódios traumáticos, como a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh em 1953 e a guerra com o Iraque, apoiada pelo Ocidente.

Na leitura do comandante, as exigências de Trump são maximalistas e, por isso mesmo, inviáveis. “As reivindicações do Trump elas são maximalistas”, afirmou, citando entre elas o “final do apoio ao resbolar, fim do programa nuclear, mesmo que pacífico” e até a derrubada do regime iraniano. “Ele quer uma, ele quer regime, ele quer uma série de coisas que ele não vai conseguir.”

Farinazzo também fez duras críticas à qualidade intelectual da liderança política dos Estados Unidos. “Se fosse um presidente americano com mínimo de intelectualidade, o último presidente americano que eu acho que lia alguma coisa foi Jimmy Carter, é o último”, afirmou. E acrescentou: “O Irã é muito mais que um país, Mário. O Irã é uma civilização de quase 3.000 anos.”

“Humilhação militar” dos Estados Unidos

Um dos pontos centrais da análise de Farinazzo foi a ideia de que os Estados Unidos, apesar de sua superioridade material, já teriam sofrido um revés estratégico diante do Irã. “Qualquer analista médio, mas que se propõe a ser sério, vai dizer para você que os Estados Unidos sofreu uma humilhação militar”, declarou.

Para sustentar essa avaliação, ele citou uma série de episódios mencionados ao longo da entrevista, entre eles a destruição de aeronaves, ataques às bases americanas na região e o fechamento do Estreito de Ormuz. “Antes de começar essa guerra, vi, muita gente vinha conversar comigo e falava: ‘O que que você acha que vai acontecer?’ Falou: ‘Olha, todos os números favorecem os Estados Unidos, mas número não quer dizer vitória’”, disse.

Em sua avaliação, o poderio militar americano não se converteu em resultado concreto. “Mesmo com todo esse número, com os 13.000 ataques que eles fizeram no Irã dis que atacaram 13.000 alvos. Não sei nem se o Iran tem tudo isso, mas eles não conseguiram resultado militar nenhum. Pelo contrário, as coisas pioraram.” E detalhou: “O Streito tava aberto há há 60 dias atrás, tá fechado agora, né? Aeronaves americanas foram destruídas, soldados americanos morreram em radar de bilhões de dólares aí viraram sucata.”

Bloqueio no Estreito de Ormuz e impacto global

Ao comentar a decisão dos Estados Unidos de bloquear o tráfego relacionado ao Irã e a reação iraniana de ampliar as restrições no Estreito de Ormuz, Farinazzo afirmou que a medida pode até ser executável do ponto de vista naval, mas não resolve o problema central e tende a agravar a crise econômica.

“Esse o o bloqueio, o Mário, ele é exequível em termos navais. Se você não se aproximar muito a costa do Irã, você até consegue, né? Mas em termos econômicos, ele não vai mudar nada”, disse. Segundo ele, o efeito mais imediato será sentido no preço da energia e no custo logístico global.

“O mercado não quer saber quem tá bloqueando. O mercado vai levar os preços do petróleo. O consumidor americano vai sentir na bomba por quanto tempo?”, questionou. Em outro trecho, reforçou a gravidade do momento: “O consumidor americano vai sentir na bomba para saber qual vai ser a reação dele. É ano eleitoral nos Estados Unidos. É ano eleitoral.”

Ele também alertou para reflexos na Europa, especialmente na área de combustíveis para a aviação, e indicou que a crise deve contaminar as seguradoras e o transporte marítimo. “As companhias de seguro vão vão cruzar os braços”, afirmou, observando que o risco elevado tende a encarecer ou inviabilizar parte das operações na região.

Risco de guerra terrestre e limites dos EUA

Farinazzo afirmou ver como “extrema estupidez” a hipótese de uma invasão terrestre americana ao Irã. Segundo ele, os Estados Unidos não dispõem, neste momento, nem de base social nem de condições estratégicas seguras para sustentar uma guerra longa em território iraniano.

“Há quem diga que o Trump vai tentar uma ação terrestre com o Irã. Eu acho que seria extrema estupidez”, disse. Para embasar sua posição, lembrou a experiência da guerra Irã-Iraque. “Quando houve o ataque do Sadã em 80, o Sadã tinha o quinto melhor exército, o quinto maior exército do mundo, extremamente equipado com que havia de mais moderno naquela época. E o Sadã atolou.”

Na sequência, ressaltou os limites operacionais de Washington na região. “Os Estados Unidos não tem efetivo hoje e nem apoio da sociedade para iniciar uma guerra que contra o Irã, você não tenha dúvida. Muito provavelmente será uma guerra longa.” Também observou que aliados regionais não demonstram disposição para servir de plataforma para uma grande ofensiva terrestre.

Para o comandante, a tendência é de aprofundamento do impasse. “A tendência é a coisa ir afundando cada vez mais”, resumiu.

Tecnologia militar e temor sobre mísseis iranianos

Um dos momentos mais técnicos da entrevista ocorreu quando Farinazzo levantou a hipótese de que China ou Rússia possam ter transferido ao Irã tecnologia de guiagem terminal para mísseis balísticos. Ele explicou que essa capacidade permitiria atingir alvos navais em deslocamento com muito mais precisão, elevando enormemente o risco para a frota americana.

“Eu tenho uma suspeita muito grande que a China ou a Rússia podem ter passado pro Irã tecnologia de guiagem terminal dos mísseis balísticos dele”, afirmou. Em seguida, explicou o conceito: “A guaggem terminal é um sistema de gagem do míssil que quando ele localiza o navio, ele vai em direção ao mesmo.”

Segundo Farinazzo, esse tipo de capacidade é especialmente sensível porque um navio em movimento representa um alvo muito mais difícil do que uma instalação fixa. “Se eles dominarem essa tecnologia, a frota americana corre um sério risco”, alertou.

Ele também destacou a evolução da indústria bélica iraniana, sobretudo na área de foguetes, drones e mísseis. “O iraniano hoje eu falo sempre o seguinte, que ele faz o que ele quer com foguete”, declarou. Para o comandante, o Irã já se aproxima de países como Rússia, China e Coreia do Norte em certos domínios tecnológicos.

Crítica a Trump e à democracia dos Estados Unidos

Ao longo de toda a conversa, Farinazzo fez críticas severas a Donald Trump, associando sua atuação a improvisação, erratismo e concentração excessiva de poder. Em um dos trechos mais contundentes da entrevista, disse: “O Trump ele é uma pessoa errática.” Em outro, afirmou que o presidente norte-americano “não privilegia comandantes competentes”.

O comandante também argumentou que a crise atual expõe uma deterioração estrutural da democracia nos Estados Unidos. “O Trump está sendo uma prova de fogo paraa democracia americana. Ele está provando por A + B que nós vivemos numa ilusão há mais que os Estados Unidos é uma ilusão há 250 anos, porque não há controle sobre ele, ele faz o que ele quer.”

Na visão de Farinazzo, o problema vai além da personalidade de Trump e alcança a própria arquitetura institucional americana. “Nem o Congresso, nem a Suprema Corte. Quer dizer, que democracia é essa? Isso já virou um império. Uma pessoa com tanta uma quantidade tão grande poder nas mãos sem ter um contrapeso, você não tem uma democracia aí. Isso é uma autocracia.”

Crise política interna e desgaste do trumpismo

Farinazzo associou ainda a escalada contra o Irã ao risco de implosão política doméstica para Trump. Segundo ele, o republicano enfrenta uma corrida contra o tempo: precisa apresentar algum resultado antes que o custo econômico e social da guerra se traduza em rejeição ainda maior.

“Se ele ele prorrogar essa guerra aí até até outubro, o partido republicano derrete”, afirmou. Em outro momento, observou que o descontentamento já alcança a base mais fiel do presidente: “O Maga se sentiu traído.”

Ao comentar o cenário eleitoral, Farinazzo se mostrou cético quanto à capacidade das instituições de conter Trump, mesmo diante de um eventual revés republicano. Ainda assim, reconheceu o potencial de desgaste crescente: “Provavelmente os os, os democratas vão ganhar as duas casas. É uma possibilidade muito grande se mantiver aí o desastre que a gente tá vendo hoje.”

Ordem mundial e fortalecimento do multilateralismo

Para além do teatro militar imediato, Farinazzo sustentou que a crise atual aponta para transformações mais profundas na ordem internacional. Em sua leitura, a incapacidade dos Estados Unidos de impor sua vontade ao Irã reforça a transição para um mundo multipolar e acelera o desgaste do poder americano.

“Eu acho que o multilateralismo ele ele vai vencer”, declarou. Segundo ele, Rússia, China e Irã estão no centro desse processo de rearranjo geopolítico, enquanto o Brasil, sob a liderança do presidente Lula, tende a integrar esse movimento, ainda que com obstáculos internos.

Na mesma linha, afirmou que o enfraquecimento da hegemonia americana pode abrir caminho para um cenário internacional menos submetido à lógica das guerras permanentes. “Nós só vamos ter um pouquinho mais de paz, uma paz de ordem, um pouquinho mais de ordem medida que os Estados Unidos fosse enfraquecendo”, disse.

Ele também destacou que o Irã já pode ser considerado uma potência regional, sobretudo se atravessar a atual crise sem capitular. “Se o Irã sobreviver essa guerra aí, ninguém segura mais ele”, afirmou.

“Mais da metade do suposto poderio militar americano é propaganda”

Já na reta final da entrevista, Farinazzo resumiu sua visão sobre o alcance real da máquina de guerra dos Estados Unidos. “Mais da metade do suposto poderio militar americano é propaganda, tá? Tem muita propaganda nisso”, declarou.

Para sustentar sua avaliação, citou o histórico de conflitos travados pelos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. “Se você olhar de 1945 para cá, os nunca ganharam uma guerra”, afirmou, mencionando Coreia, Vietnã, Afeganistão, Iraque e, agora, o risco de nova derrota diante do Irã.

Na sua leitura, a imagem de potência invencível construída por Washington teria sido inflada por propaganda e pela indústria cultural. “Muito do da da do chamado poderio americano é é fantasia de Hollywood”, disse.

A entrevista terminou com um retrato de incerteza, mas também com uma conclusão firme do comandante: a crise aberta por Trump no Oriente Médio expõe limites militares, políticos e morais dos Estados Unidos e pode se transformar em um marco de declínio histórico da hegemonia americana. Para Farinazzo, o impasse já não diz respeito apenas a uma guerra regional, mas à disputa sobre o tipo de ordem mundial que emergirá desta década.

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