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Pedro Serrano alerta para uso político de delação e diz que caso Vorcaro pode proteger o bolsonarismo

Jurista afirma que vazamentos, seletividade investigativa e construção de narrativas pela mídia repetem métodos da Lava-Jato

Pedro Serrano (Foto: Reprodução Youtube)

247 – O jurista Pedro Serrano afirmou, em entrevista ao Boa Noite 247, que a eventual delação de Daniel Vorcaro pode ser conduzida de forma seletiva e politicamente manipulada, com potencial para “proteger o bolsonarismo” e atingir adversários escolhidos previamente. Ao analisar o caso em conversa com os jornalistas da TV 247, Serrano sustentou que já há sinais de repetição de métodos usados durante a Lava-Jato, especialmente por meio de vazamentos ilegais, construção de narrativas midiáticas e uso distorcido da delação premiada.

Na entrevista publicada no canal do Brasil 247 no YouTube, Serrano fez um alerta duro sobre o cenário em formação e defendeu que o governo reaja imediatamente, dentro da lei, para conter abusos antes que eles ganhem corpo político e institucional. Para ele, a experiência brasileira recente mostra que o problema não está necessariamente no instituto da delação, mas na forma como ele pode ser instrumentalizado para fins de perseguição e disputa de poder.

Serrano distingue delação legítima de delação manipulada

Ao longo da entrevista, Pedro Serrano rejeitou a ideia de que seja contrário, em si, ao mecanismo da delação premiada. O ponto central de sua crítica, disse ele, é o modo como o instrumento foi usado na Lava-Jato e pode voltar a ser usado agora.

Segundo o jurista, a lógica jurídica correta da delação é clara: o investigado entrega provas, ou caminhos concretos para a obtenção de provas, e depois o juiz avalia se houve efetiva colaboração, concedendo ou não benefícios penais. Em suas palavras, trata-se de uma “troca de provas” por redução de pena.

Serrano afirmou que o desvirtuamento ocorre quando a delação se transforma numa espécie de “confissão geral de vida”, recheada por acusações sem comprovação. Ao recordar o padrão adotado em investigações passadas, ele resumiu: “O sujeito entregava 20% de verdade, 80% ou de condutas não provadas ou de mentiras mesmo”.

Para o jurista, esse expediente permite envolver politicamente pessoas que podem jamais ter cometido qualquer crime, justamente porque certas acusações são de difícil refutação objetiva quando formuladas sem base documental. Foi nesse contexto que ele citou o exemplo de falsas imputações que, mesmo sem prova, servem para alimentar prisões preventivas, desgaste público e condenações antecipadas no tribunal da opinião publicada.

Crítica à Lava-Jato e medo de repetição do método

Serrano associou diretamente o atual ambiente em torno do caso Vorcaro ao roteiro já visto na Lava-Jato. Ele lembrou delações que, segundo sua avaliação, continham acusações falsas ou jamais comprovadas, sem que isso tivesse gerado perda de benefícios aos delatores.

Ao mencionar a delação de Antonio Palocci, foi categórico: “100% da delação era falsa, né? Ou pelo menos não tinha prova”. Em seguida, questionou a ausência de consequências jurídicas para esse tipo de colaboração malsucedida: “Palocci perdeu algum benefício? Nenhum”.

A crítica de Serrano é que esse histórico criou um precedente perigoso: o uso da delação não como meio técnico de investigação, mas como arma de guerra política. Em sua leitura, há risco de repetição do mesmo enredo, agora com novo alvo e nova conjuntura, mas com idêntica engenharia de exposição pública, pressão institucional e fabricação de narrativas.

Ele foi direto ao apontar o horizonte que enxerga: “Eu acho que há uma tendência de proteger o bolsonarismo, envolver algumas pessoas do centrão para dar um tom de verdade (...) envolver gente do PT, governo por razão política”.

O papel dos vazamentos e a relação com a mídia

Um dos pontos mais enfatizados por Serrano foi o vazamento de informações sigilosas. Para ele, esse é o primeiro indício de contaminação política da investigação. Segundo o jurista, o problema é agravado quando parte da mídia adere a esse processo sem a devida apuração crítica.

Ele descreveu esse mecanismo de forma contundente: “Vaza criminosamente informações da investigação” e, em seguida, “a mídia adere e passa a caminhar nesse sentido”. Na sua avaliação, forma-se uma simbiose entre agentes públicos que cometem o crime de divulgar dados sigilosos e jornalistas que reproduzem esse material sem o trabalho de investigação que a ética profissional exigiria.

Serrano sustentou que esse método já foi testado no Brasil e produz efeitos previsíveis: antecipação do julgamento público, pressão sobre autoridades, construção de culpabilidades seletivas e contaminação do ambiente político. Para ele, o passo seguinte natural desse processo é justamente uma delação “seletiva e manipulada”.

A crítica se estendeu à apresentação, por veículos da mídia corporativa, de quadros e esquemas visuais que associam personagens políticos distintos sob uma mesma suspeita, mesmo quando as situações são juridicamente diferentes. Serrano citou com preocupação a inclusão do presidente Lula, de integrantes do governo e de outros nomes num mesmo “PowerPoint”, sustentando que esse tipo de exposição visual não é neutro e serve para fabricar sentido político antes da apuração dos fatos.

“Há tempo do governo reagir”, diz jurista

Embora tenha se declarado pessimista com o rumo dos acontecimentos, Pedro Serrano insistiu que ainda existe espaço para reação institucional. Essa reação, afirmou, não deve ocorrer por meio de arbitrariedades, mas pela simples aplicação da lei.

Seu principal argumento é que houve crime no vazamento de informações, e que isso precisa ser apurado imediatamente. Ele cobrou atuação firme da direção da Polícia Federal e defendeu o afastamento de delegados ou agentes sob suspeita de participação nesses vazamentos.

Nas palavras do jurista: “É hora do governo ser governo”. Em outro momento, reforçou: “O governo precisa reagir dentro da lei. Nós precisamos cobrar legalidade”.

Serrano também recorreu a uma imagem política para explicar sua cobrança. Segundo ele, governos progressistas costumam esperar o ataque se consolidar para só então responder, quando já é tarde demais. Sua formulação foi precisa: é preciso “defender a fronteira” antes que “o palácio” seja atacado.

A seu ver, não basta responder depois da explosão do escândalo. O enfrentamento deve começar no momento em que aparecem os primeiros sinais de manipulação. E, para ele, esses sinais já estão dados.

Estratégia da investigação e ordem das delações

Outro eixo importante da entrevista foi a crítica à eventual prioridade dada à delação de Vorcaro. Serrano sustentou que, do ponto de vista investigativo, a estratégia mais coerente seria começar pelos subordinados, sócios, operadores e demais envolvidos em posição inferior na cadeia de comando, deixando o suposto líder para o final.

Ele resumiu essa lógica de forma didática: “Você começa com a delação de quem tá embaixo, deixa o cara de cima pro fim”. Para o jurista, agir ao contrário sugere que o objetivo principal não é apurar o máximo de crimes e responsabilizar o maior número de culpados, mas sim produzir desde logo um material politicamente útil.

Essa observação se conecta à sua tese central: se a delação do principal personagem é buscada primeiro, abrem-se mais possibilidades de construção seletiva de narrativa, escolha de alvos e concessão de benefícios excessivos ao agente que deveria ser o mais responsabilizado.

Serrano afirmou ainda que, se houver real interesse de investigação, outros nomes ligados ao caso deveriam ser ouvidos antes. Mencionou ex-sócios, operadores da área política, ex-dirigentes bancários e integrantes do Banco Central apontados nas apurações. Em sua visão, isso permitiria reduzir a margem de manobra do delator principal e preservar maior rigor jurídico.

Seletividade pode distorcer o caso e poupar aliados do bolsonarismo

A preocupação mais sensível manifestada por Serrano diz respeito à seletividade. Para ele, o problema não é que figuras da política sejam eventualmente atingidas por uma investigação. Se houver envolvimento comprovado, disse, todos devem ser punidos, inclusive nomes ligados ao governo ou ao PT. O risco, segundo ele, está em punir alguns, blindar outros e misturar inocentes com culpados para produzir um fato político de grande impacto.

Ele afirmou: “Se tiver alguém do governo envolvido para valer, que seja punido. Se tiver alguém do PT envolvido para valer, que seja punido”. Mas advertiu, no mesmo raciocínio, que a investigação precisa alcançar também conexões com o bolsonarismo, o Banco Central da gestão anterior, o mercado financeiro e estruturas de poder que não podem ser convenientemente apagadas.

Na leitura do jurista, a manipulação ocorreria justamente quando certos atores são deixados fora do quadro narrativo, enquanto outros são expostos de forma ostensiva. Por isso, ele insistiu que a questão central nem sempre está apenas em “quem está na imagem”, mas sobretudo em “quem deixou de estar na imagem”.

Essa seletividade, acrescentou, é o mecanismo que transforma investigação criminal em operação política. “Você politiza o processo crime, você politiza a investigação”, disse. E concluiu: “Você cria uma narrativa”.

André Mendonça e os limites da supervisão judicial

Questionado sobre o papel do ministro André Mendonça, apontado como supervisor judicial do caso, Serrano adotou posição cautelosa. Disse que, até o momento, não viu em Mendonça uma conduta semelhante à de Sergio Moro e reconheceu que suas decisões, em geral, lhe parecem corretas.

Ele declarou: “Ele não deu essa impressão. Eu tenho que ser justo aqui”. Também acrescentou que, salvo ressalvas pontuais, considera que o ministro tomou “excelentes decisões” até aqui, inclusive ao determinar a apuração de vazamentos.

Ainda assim, Serrano ponderou que a supervisão do ministro pode não ser suficiente para impedir o dano político. Isso porque, em seu entendimento, o estrago costuma ocorrer antes da homologação judicial da delação, por meio do vazamento do conteúdo negociado. Quando isso acontece, a disputa já saiu do terreno jurídico e passou a operar no plano político e midiático.

Por isso, mesmo reconhecendo um comportamento até aqui mais equilibrado de Mendonça, Serrano voltou a insistir que a questão decisiva está na origem do vazamento e na capacidade administrativa da Polícia Federal de contê-lo.

“Vai virar festa” se não houver resposta imediata

Na parte final da entrevista, Pedro Serrano reforçou sua cobrança por providências urgentes. Para ele, enquanto ninguém for responsabilizado pelo vazamento de informações, o ambiente permanecerá aberto à manipulação.

Sua advertência foi incisiva: “Enquanto não for ninguém sancionado por ter vazado, ninguém tem nenhuma consequência, isso vai ser festa”. Em seguida, reiterou que o diretor-geral da Polícia Federal mantém poder administrativo para agir e que não há justificativa para omissão.

O jurista deixou claro que sua defesa não é de interferência indevida do governo na investigação, mas de respeito às regras legais e proteção do próprio sigilo investigativo. Em sua visão, investigação séria não combina com espetáculo público, vazamento sistemático e criminalização seletiva da política.

A advertência final sintetiza o espírito de toda a entrevista. Se nada for feito agora, afirmou Serrano, o país pode assistir à repetição do “carnaval que foi a Lava-Jato”, com acusações infladas, abusos processuais, anulações futuras e danos políticos irreversíveis já consumados no presente.

Ao comentar o momento atual, ele resumiu a gravidade do quadro com uma fórmula simples e contundente: “É a hora agora do governo ser governo e reagir”.

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