Portos brasileiros miram R$ 10 bi em obras para receber navios maiores
Terminais de contêineres projetam expansão até 2029 para ampliar calado, capacidade operacional e atender à nova geração de embarcações
247 - Portos brasileiros miram mais de R$ 10 bilhões em obras até 2029 para receber navios maiores, ampliar a movimentação de contêineres e reduzir gargalos de infraestrutura em terminais de nove estados das regiões Sudeste, Nordeste e Sul.
Segundo levantamento da consultoria Solve Shipping divulgado pela Folha de S.Paulo, os investimentos envolvem expansão de cais, compra de equipamentos, dragagem de canais de acesso e aumento de profundidade operacional, medidas consideradas essenciais para adaptar o sistema portuário nacional à nova geração de embarcações.
Um dos projetos destacados pela consultoria é o do porto Itapoá, em Santa Catarina. O terminal privado prevê R$ 500 milhões para concluir a quarta fase de expansão, que inclui ampliação do cais e aquisição de portêineres, equipamentos usados na movimentação de contêineres em navios de grande porte.
O terminal também aguarda a conclusão da dragagem do canal de acesso ao Complexo Portuário da Baía da Babitonga. A obra, orçada em mais de R$ 324 milhões, deve permitir a entrada de embarcações maiores na região. Desse total, R$ 300 milhões foram aportados pelo porto Itapoá, com previsão de devolução parcelada até 2037, enquanto o porto de São Francisco do Sul, ligado ao governo catarinense, custeou os R$ 24 milhões restantes.
De acordo com Alberto Machado, gerente de comunicação e relações institucionais do porto Itapoá, a conclusão da dragagem é esperada entre junho e julho. “Depois tem período de testes, homologação. A gente está imaginando no segundo semestre já ter esse canal 100% aprofundado”, afirmou.
Com a obra finalizada, a profundidade do canal externo passará de 14 metros para 16 metros. A mudança permitirá a navegação de embarcações de até 366 metros de comprimento, compatíveis com navios mais modernos e de maior porte em operação no mercado internacional.
Para Leandro Carelli, sócio da Solve Shipping, a ampliação em Itapoá pode facilitar a logística de grandes navios vindos de rotas internacionais, como as da Ásia. A estratégia permitiria que embarcações descarregassem parte da carga no terminal catarinense e seguissem mais leves para portos com menor calado, que ainda não comportam navios maiores em plena capacidade.
O levantamento da Solve Shipping não inclui o Tecon Santos 10, megaterminal de contêineres projetado para o porto de Santos, em São Paulo. O projeto ainda enfrenta divergências sobre a modelagem do leilão e não tem data definida para o certame.
Carelli avalia, porém, que esse e outros projetos serão necessários para evitar pressão excessiva sobre a infraestrutura portuária nos próximos anos. “Se não vier o Tecon Santos 10 e mais algum [outro terminal] até 2035, a gente vai continuar andando acima da capacidade operacional”, afirmou.
Outro investimento de grande porte está previsto para a Portonave, terminal privado de contêineres em Navegantes, também em Santa Catarina. O aporte será superior a R$ 2 bilhões e deve adequar o cais para operar com profundidade de até 17 metros, tornando o terminal apto a receber navios de até 400 metros, segundo a empresa.
Atualmente, a Portonave opera com calado inferior a 14 metros. Com as obras, o terminal espera se adaptar às embarcações de nova geração. “Nós teremos isso formatado para receber a nova geração de navios, de 366 metros que já está começando a entrar em alguns terminais no Brasil. Até então, nós só podemos receber navios de 350 metros”, disse Osmari de Castilho Ribas, diretor superintendente administrativo da Portonave.
A Portonave também prevê infraestrutura para futura instalação de um sistema de fornecimento de energia elétrica a navios atracados. Além disso, os recursos serão usados para a compra de nove novos equipamentos, incluindo guindastes e scanners de contêineres.
Com a expansão, a capacidade operacional anual do terminal deve passar de 1,5 milhão para 2 milhões de TEUs, unidade equivalente a um contêiner de 20 pés.
Em Pernambuco, a APM Terminals constrói um novo terminal de contêineres no porto de Suape. O investimento é estimado em R$ 2,1 bilhões, com início de operação previsto para o segundo semestre de 2026.
Em entrevista à Folha durante a Intermodal South America, feira do setor de logística, Leonardo Levy, diretor de Investimentos para as Américas da APM Terminals, afirmou que o terminal foi planejado para acompanhar a evolução da navegação no país, mas ressaltou que a adaptação precisa ocorrer em escala nacional.
“O terminal vai estar preparado para isso [receber navios maiores]. Mas não adianta um porto, um terminal só estar preparado para isso no Brasil. A gente tem que ter vários portos preparados para isso, porque o navio que vem para cá não escala um terminal só”, disse Levy.
A previsão bilionária de investimentos mostra que o setor portuário brasileiro tenta responder ao aumento do tamanho das embarcações e à demanda por maior eficiência logística. A modernização dos terminais, porém, depende da execução coordenada de obras de profundidade, capacidade operacional e novos equipamentos em diferentes pontos da costa brasileira.


