Exército prepara plano de transformação e quer 20% das tropas em prontidão
Plano inclui otimização de estruturas e necessidade de base industrial de defesa diante do aumento das tensões globas
247 - O Exército quer 20% da tropa em prontidão e prepara uma política de transformação que prevê brigadas em alerta, uso de tecnologias emergentes e reorganização da força terrestre para responder a ameaças externas em um cenário internacional marcado por conflitos, rearmamento e rápida evolução tecnológica.
De acordo com reportagem da CNN Brasil, a força realiza um novo mapeamento de riscos e ameaças à defesa nacional, que deve ser concluído nas próximas semanas e levado aos generais do Alto Comando provavelmente em junho. A política foi formalmente aprovada em portaria assinada pelo comandante Tomás Paiva e indica mudanças no desenho institucional, nas capacidades militares, na doutrina e na formação dos integrantes do Exército.
O documento parte de uma avaliação de que o ambiente geopolítico está mais instável e de que há uma tendência consistente de ampliação dos investimentos em defesa no mundo. Nesse contexto, a política considera “imperativo” que o Brasil acompanhe esse movimento, em meio às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e à multiplicação de conflitos em diferentes regiões.
Mais de 30 países registraram conflitos em seus territórios em 2024, atingindo áreas que concentram 45% da população global, conforme estudo divulgado pelo Fundo Monetário Internacional em suas reuniões de primavera. O FMI também apontou que cerca de 1,9 milhão de pessoas morreram em conflitos na última década e meia, em um cenário de rearmamento que pressiona os orçamentos nacionais.
No caso brasileiro, os gastos de R$ 30 bilhões em seis anos para a modernização das Forças Armadas foram retirados do arcabouço fiscal. Ainda assim, o montante é considerado limitado diante das necessidades de reaparelhamento militar. O diagnóstico do Exército ressalta que o aumento de recursos, por si só, não resolve todos os gargalos.
“A atual demanda global por materiais de emprego militar supera a capacidade produtiva existente”, afirma a política de transformação.
O documento associa esse cenário à necessidade de fortalecer a Base Industrial de Defesa, com o objetivo de assegurar capacidades críticas para a proteção do país. A dificuldade já aparece em áreas práticas, como a renovação de estoques de munições no mercado internacional, pressionado pela alta demanda.
Prontidão e dissuasão
Um dos pontos centrais da proposta é manter ao menos 20% das tropas em “elevado grau” de prontidão para uma eventual resposta imediata a ameaças externas. A lógica é descrita por militares envolvidos na formulação da política como uma forma de “dissuasão assimétrica”.
A estratégia parte da hipótese de que o Brasil pode enfrentar adversários mais bem equipados. Por isso, a força busca contar com efetivos capazes de se deslocar para qualquer região do território nacional e oferecer uma reação inicial para conter, neutralizar ou reduzir ameaças.
Das 25 brigadas atualmente operativas, cinco deverão receber essa característica. Segundo fontes militares citadas pela reportagem, a previsão inicial inclui a Brigada Paraquedista, no Rio de Janeiro; a Brigada Aeromóvel, em Caçapava, em São Paulo; a Brigada de Infantaria de Selva, em Marabá, no Pará; a Brigada de Infantaria Mecanizada, em Campinas, em São Paulo; e a Brigada de Cavalaria Blindada, em Ponta Grossa, no Paraná.
Nova organização da força terrestre
A transformação também prevê uma reorganização das tropas em quatro modelos de emprego. As forças de emprego imediato ficarão voltadas à resposta inicial, em razão da localização estratégica, como a proximidade da faixa de fronteira ou de áreas com potencial de crise.
As forças de emprego de prontidão deverão atuar em qualquer parte do território nacional, com poder de combate para enfrentar ameaças por meio de operações ofensivas. Já as forças de emprego continuado serão direcionadas a situações de conflito prolongado e de larga escala, com foco em defesa territorial, formação da reserva mobilizável e apoio ao Estado.
O quarto eixo reúne as forças de emprego no multidomínio, preparadas para operar em diferentes ambientes e integrar módulos da Força Terrestre Componente ou de um Comando Conjunto.
Tecnologia, drones e guerra contemporânea
O diagnóstico do Exército destaca que os conflitos atuais são marcados pela “aceleração exponencial da inovação tecnológica” e pela “proliferação de sensores, sistemas não tripulados [drones] e fogos de precisão”.
A política também observa que a América do Sul ganha relevância em um mundo multipolar por reunir recursos naturais altamente visados por potências estrangeiras. Outro ponto citado é o avanço e a sofisticação do crime organizado transnacional, que impõem desafios adicionais à soberania e à governança regional.
“Nesse contexto, infere-se que a efetividade no combate está diretamente associada à superioridade de informações, à letalidade, à sustentação, à proteção e à mobilidade, nos níveis tático, operacional ou estratégico”, afirma o documento.
Formação militar e plano estratégico
A política de transformação inclui ainda mudanças nas áreas de capacidades, doutrina e formação. No caso da formação militar, o texto menciona a necessidade de capacitação para o emprego de tecnologias “emergentes e disruptivas”.
O Estado-Maior do Exército foi designado como indutor da política, com a 7ª Subchefia responsável pela coordenação dos trabalhos. As diretrizes deverão ser discutidas ao longo do ano e encaminhadas ao Alto Comando do Exército no fim de 2026.
As ações previstas serão incorporadas “de imediato” ao atual plano estratégico da força, referente ao período de 2024 a 2027, e deverão orientar também o ciclo seguinte, de 2028 a 2031.


