75 anos de Hiroshima e Nagasaki: armas nucleares e imperialismo

A utilização de armas nucleares, ou planos de utilizá-las, historicamente, sempre esteve ligada ao imperialismo estadunidense. Somente através desse entendimento poderemos extrair as lições do crime cometido em Hiroshima e Nagasaki e atingir um futuro mais pacífico

(Foto: Arquivo)
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Leonardo Sobreira, 247 - Neste aniversário de 75 anos da detonação das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki é importante que divulguemos os relatos de sobreviventes, como grande parte da mídia vem fazendo. A tragédia humanitária gerada pela detonação e a difusão de material nuclear só é entendida na sua verdadeira escala quando adquirimos uma noção do sofrimento pessoal. 

A BBC, por exemplo, compilou a história de três sobreviventes. Para Teruko Ueno, que tinha quinze anos de idade na época, “eu nunca fui para o inferno, então não sei como é lá, mas é provavelmente parecido com o que passamos. Nunca podemos deixar que aconteça de novo.”

Emiko Okada, que tinha seis anos na época, diz: “minha irmã saiu de casa naquela manhã dizendo: ‘Nos vemos mais tarde!’ Ela só tinha doze anos e era tão cheia de vida. Mas ela nunca retornou. Ninguém sabe o que aconteceu com ela.”

Emiko continua: “Por conta de não ter nada para comer, as pessoas roubavam. Comida era o maior problema. Água era preciosa. Foi assim que as pessoas viveram no primeiro momento, mas isso foi esquecido.” Ela termina: “Todo ano, algumas poucas vezes, o céu se torna vermelho no pôr do sol. É tão vermelho que as faces das pessoas ficam vermelhas. Nestes momentos, eu penso no pôr do sol no dia que jogaram a bomba. Durante três dias e três noites, a cidade estava sob chamas. Eu odeio pores do sol. Até hoje eles me lembram da cidade queimando.”

Mas talvez o mais vívido dos relatos seja o de Reiko Hada, que tinha nove anos quando a segunda bomba foi detonada em Nagasaki, três dias após Hiroshima. Ela diz: “Eu saí sem nenhum arranhão. Eu fui salva pelo Monte Kupira. Mas foi diferente para as pessoas do outro lado da montanha. Eles estavam em uma condição terrível.”

“Muitos fugiram para nossa comunidade. Pessoas com os olhos esbugalhados, os cabelos desgrenhados, quase todos nus, e com queimaduras tão severas que deixaram a pele apenas pendurada no corpo.”

“Eles pediam água. Me pediram para ajudar eles, então achei uma tigela quebrada e peguei a água do rio para que eles bebessem. Após o primeiro gole, eles morriam. As mortes não paravam.”

É unânime a frustração dos sobreviventes com o fato de a humanidade não estar sequer próxima a um futuro livre de armas nucleares. Hada espera que “gerações futuras nunca passem por uma experiência similar. Nunca podemos deixar que armas nucleares sejam utilizadas mais uma vez.”

No entanto, devemos nos questionar também se não existiam dinâmicas mais profundas por trás da estratégia americana. A história da bomba atômica não é somente americana-japonesa, mas se expande para incluir todo o mundo subdesenvolvido. E é somente quando contada através dessa perspectiva global que a comunidade internacional poderá cumprir sua meta, estabelecida após os eventos do 6 de agosto de 1945, de um futuro livre de armas nucleares. 

Mesmo não oficialmente rendido até setembro de 1945, muitos historiadores afirmam que o Japão não teria condições de continuar atuando na guerra. Segundo o historiador e autor Gar Alperovitz, os próprios líderes americanos tinham ciência da iminente rendição japonesa. Existiam interesses maiores por trás do bombardeamento.

Dentre eles, é claro o interesse em conter as alegadas ambições territoriais da União Soviética no pós-Guerra. A intimidação contra os soviéticos tinha por objetivo conter suas ambições territoriais, principalmente no Leste Europeu, onde começara a competição geopolítica por controle da região. Conforme a União Soviética e os países socialistas do Leste Europeu foram se tornando uma nova realidade geopolítica, a corrida armamentista ganhava força, e sua herança é visível até os dias de hoje. 

Em meio a essa competição, o mundo subdesenvolvido foi subjugado pelas duas superpotências. No Congo, por exemplo, a mina de urânio Shinkolobwe, de onde saiu a maior parte do material base para o Projeto Manhattan, influenciou diretamente a trajetória política do país. Após a eleição de Patrice Lumumba, líder revolucionário visto como aliado da União Soviética, os EUA fizeram de tudo para levar o general Mobutu ao poder, assim mantendo Shinkolobwe sob sua influência. Uma plutocracia desastrosa foi formada em 1965, que só terminou como resultado da guerra civil em 1997.

Isso sem contar a maneira como armas nucleares são utilizadas até o dia de hoje. Como notado pelo autor Eric Herring, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, “os EUA estão dispostos a utilizar a subversão, intervenção militar e ameaças nucleares para ‘ganhar e reganhar’ seu controle” sob diversas regiões, desde o Oriente Médio e Sudeste Asiático até a América Latina.

Recentemente, o Irã acusou os EUA de utilizar seu arsenal de armas nucleares, juntamente com Israel, para ameaçar a região. A não-aderência de Israel ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, por exemplo, gera grande incerteza na região.
Durante a guerra do Vietnã, apesar de não terem sido empregadas, as armas nucleares serviram um papel essencial. Foi recentemente publicado pelo Pentágono um plano condicional, que tinha como base o envolvimento Chinês no conflito. Caso ele se materializasse, tanto alvos na China como no Vietnã teriam sido destruídos.

Historicamente, o imperialismo e o desenvolvimento destas armas andam de mãos dadas também na América Latina. Durante o bloqueio de Cuba, a região poderia ter mergulhado em um conflito nuclear sem precedentes. 

O ponto que deve ser enfatizado é que existe uma conexão clara entre o imperialismo estadunidense e planos de utilização de armas nucleares. É somente quando entendermos o problema nessa dimensão que poderemos realmente cumprir o desejo das vítimas. 

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