O que está por trás do fenômeno Kanye West?

A empreitada do rapper e estilista americano na política é sintoma de um problema social e cultural maior. O fenômeno Kanye representa o ápice da dinâmica entre cultura e realidade, onde estes se tornam contínuos. Visões de mundo como a sua fazem parte da fábrica sociopolítica atual

Kanye West
Kanye West
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Leonardo Sobreira, 247 - Desde seu anúncio no Twitter de que concorrerá à presidência americana, o rapper e estilista americano Kanye West vem gerando controvérsias por suas declarações bombásticas. 

No domingo (19), Kanye argumentou em seu primeiro evento de campanha que “Harriet Tubman [abolicionista e ativista afro-americana] na verdade nunca liberou os escravos. Ela apenas fez com que eles fossem trabalhar para outras pessoas brancas.” 

Visivelmente emocionado, ele também revelou: “[meu pai] queria me abortar. Minha mãe salvou minha vida. O Kanye West não existiria porque meu pai estava muito ocupado.” Em prantos, ao lembrar de que teve que ser convencido pela esposa, a socialite Kim Kardashian, contra o aborto de sua filha, ele também disse: “[eu] quase matei minha filha! Eu quase matei minha filha!” Apesar disso, ele clarificou seu posicionamento favorável ao aborto, mas também que “todas famílias que decidem ter filhos devem receber um benefício de 1 milhão de dólares ou algo nessa faixa.”

Apesar de não ter elaborado seu plano político detalhadamente, Kanye revelou em entrevista à Forbes que seu modelo de inspiração é a civilização fictícia de Wakanda, do filme Pantera Negra. Apesar de aparentemente trivial, no entanto, esta é a declaração mais importante para se entender o fenômeno Kanye. 

Por mais divertido que seja listar as absurdidades de Kanye, o fenômeno por trás de sua popularidade merece uma análise mais profunda. Muito além dos incontáveis álbuns que se tornaram referência no universo do rap, da sua influência no mundo da moda e de seu transtorno de personalidade narcisista, o projeto de tornar real a civilização de Wakanda ilustra, de maneira quase boba, o poder supremo da cultura popular nos dias atuais. 

Como já diria Adorno, em sua Dialética do Esclarecimento, a cultura Hollywoodiana impacta diretamente a realidade concreta das relações humanas. Ele diz: “o mundo inteiro passa pelo filtro da indústria cultural. A experiência familiar do frequentador de cinema, que percebe a rua fora como uma continuação do filme que ele acabara de assistir, porque a indústria do cinema procura reproduzir o mundo da percepção diária, se tornou a orientação da produção.”

Nem mesmo a política consegue escapar da influência esmagadora da cultura popular.

Só basta citar os incontáveis exemplos de personalidades do mundo cultural que se tornaram políticos: Ronald Reagan, Donald Trump, Romário, Tiririca, e por aí vai.

A internet, que permite a disseminação memética de figuras populares, acelera ainda mais este processo. E, como se não bastasse, a quarentena reduziu a totalidade das relações pessoais ao mundo virtual. Até mesmo as relações humanas mais básicas, hoje em dia, são virtuais. 

Assim, o fenômeno Kanye representa o ápice da dinâmica entre cultura e realidade, onde estes se tornam contínuos. Visões de mundo como a sua, inspirada em Wakanda, e sua popularidade, que cresce cada vez mais com a divulgação de incontáveis memes, fazem parte da fábrica sociopolítica atual. 

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